quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A GUERRA CONTRA OS CRISTÃOS

A Grande imprensa resolveu acordar. Muitos cristãos tem sofrido perseguições e sendo mortos nos países muçulmanos.Mas grande parte da imprensa mundial não dá tanto destaque quando isso acontece. Mas uma reportagem da revista Newsweek , mostra o porque isso acontece. 
 Dou os parabéns pra a revista. E aqui coloco alguns trechos da reportagem:

Ouvimos tantas vezes sobre os muçulmanos como vítimas de abuso no Ocidente e combatentes na Primavera árabe na  "luta contra a tirania". Mas, na verdade, um tipo totalmente diferente de guerra está em curso ,custando milhares de vidas. Os cristãos estão sendo mortos no mundo islâmico por causa de sua religião. É um genocídio em ascensão que deve provocar alarme global.

O retrato de muçulmanos como vítimas ou heróis é na melhor das hipóteses parcialmente precisas. Nos últimos anos a opressão violenta contra minorias cristãs se tornaram a norma em países de maioria muçulmana que se estende desde a África Ocidental e do Oriente Médio para o Sul da Ásia e Oceania. Em alguns países são os governos e seus agentes que queimaram igrejas e prenderam cristãos. Em outros, grupos rebeldes  fizeram isso, assassinando cristãos e forçando-os a saírem de regiões onde viviam a séculos.


O medo da mídia de falar sobre o assunto, sem dúvida, tem vários motivos. Pode ser o medo de provocar mais violencia. Outro motivo, é mais provável , pode ser a influência dos grupos de lobby, como a Organização de Cooperação Islâmica, uma espécie de Nações Unidas do Islã, centrada na Arábia Saudita e do Conselho sobre Relações Americano-Islâmicas. Durante a última década,estes grupos  e outros têm sido notavelmente bem sucedidos em convencer as principais figuras públicas e jornalistas no Ocidente a pensarem que toda e cada crítica feita aos muçulmanos,sejam exemplos de discriminação  anti-muçulmana, a chamada "islamofobia" - um termo que é utilizado para provocar a desaprovação moral , comparada à xenofobia ou homofobia.
 Mas uma avaliação imparcial dos acontecimentos recentes  leva à conclusão de que a dimensão e a gravidade da islamofobia desaparece  em comparação com a cristofobia sangrenta atualmente acontecendo em países de maioria muçulmana em todo o mundo. O silêncio em torno desta expressão violenta de intolerância religiosa tem que parar. Nada menos do que o destino do cristianismo e, em última análise de todas as minorias religiosas no mundo islâmico está em jogo.

De leis de blasfêmia a assassinatos brutais,de atentados a mutilações e da queima de locais sagrados, os cristãos de tantas nações vivem com medo. Na Nigéria, muitos sofreram todas essas formas de perseguição. A nação possui a maior minoria cristã (40 por cento) na proporção de sua população (160 milhões) de qualquer país de maioria muçulmana. Durante anos, os muçulmanos e cristãos na Nigéria tem vivido à beira da guerra civil. Radicais islâmicos provocam muita se não toda a tensão. A mais recente dessas organizações , que se chama Boko Haram, que significa "educação ocidental é um sacrilégio." Seu objetivo é estabelecer a Sharia na Nigéria. Para este fim, declarou que vai matar todos os cristãos no país.
 No mês de janeiro deste ano , Boko Haram foi responsável por 54 mortes. Em 2011, seus membros mataram pelo menos 510 pessoas e queimaram ou destruíram mais de 350 igrejas em 10 estados do norte. Eles usam armas, bombas de gasolina, e até facões, gritando "Allahu akbar" ("Deus é grande"), enquanto realizam  ataques contra cidadãos inocentes. Eles atacaram igrejas, uma  no dia de Natal (matando 42 católicos).
 A cristofobia, que tem atormentado o Sudão há anos toma uma forma muito diferente. O governo autoritário  muçulmano sunita no norte do país há décadas atormentam a minoria cristã do sul. O que tem sido muitas vezes descrito como uma guerra civil é, na prática perseguição sustentada pelo governo do Sudão. Esta perseguição culminou no genocídio  em Darfur, que começou em 2003. Mesmo que o presidente muçulmano do Sudão, Omar al-Bashir, foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional em Haia, que o acusou de genocídio, e apesar da euforia que saudou a independência do  Sul do Sudão em julho do ano passado, a violência não terminou. Em Kordofan Sul, os cristãos ainda estão sujeitos a sofrerem bombardeios aéreos, assassinatos seletivos, o seqüestro de crianças, e outras atrocidades. Relatórios da Organização das Nações Unidas indicam que entre 53.000 e 75.000 civis inocentes foram deslocados de suas casas e que casas e edifícios foram saqueados e destruídos.

 Ambos os tipos de perseguições, realizadas por grupos extragovernmental, bem como por agentes do Estado aconteceram no Egito, no rescaldo da Primavera árabe. Em 9 de outubro do ano passado na área de Maspero Cairo, cristãos coptas (que representam cerca de 11 por cento da população do Egito de 81 milhões) marcharam em protesto contra uma onda de ataques islâmicos, incluindo os incêndios em igrejas, estupros, mutilações, e assassinatos, que se seguiram à derrubada da ditadura de Hosni Mubarak. Durante o protesto, as forças de segurança egípcias levaram seus tanques no meio da multidão e atiraram contra os manifestantes, esmagando e matando pelo menos 24 e ferindo mais de 300 pessoas. Até o final do ano mais de 200.000 coptas fugiram de suas casas com medo de mais ataques. Com islâmicos prontos para ganharem  poderes muito maiores, na sequência das recentes eleições, os medos dos Cristãos parecem serem justificados.


 A reportagem tem vários outros exemplos de perseguições contra os cristãos no Irã, Indonésia, etc. E termina dizendo:


Então, vamos por favor colocar isso entre nossas prioridades. Sim, os governos ocidentais devem proteger as minorias muçulmanas de intolerância. E, claro, devemos garantir que eles possam adorar, viver e trabalhar livremente e sem medo. É a proteção da liberdade de consciência e de expressão que distingue as sociedades livres das ditaduras.Mas também precisamos manter a perspectiva sobre a escala e gravidade da intolerância. Desenhos, filmes, e escritos (Sobre maomé) são uma coisa, facas, pistolas e granadas são algo completamente diferente.
Quanto ao que o Ocidente pode fazer para ajudar as minorias religiosas em sociedades de maioria muçulmana, a minha resposta é que ele precisa a começar a usar os bilhões de dólares em ajuda que dá aos países problemáticos como alavancagem. Depois, há o comércio e o investimento. Além da pressão diplomática, essas relações de ajuda e comércio podem e devem ser subordinada à proteção da liberdade de consciência e de culto para todos os cidadãos.
Em vez de acreditarmos em notícias exageradas de islamofobia ocidental, vamos tomar uma posição real frente a cristofobia que existe no mundo muçulmano. A tolerância é para todos, exceto os intolerantes.


Sobre a autora:  Ayaan Hirsi Ali nasceu em Mogadíscio, na Somália,  escapou de um casamento arranjado e imigrou para a Holanda em 1992. Ela serviu como um membro do parlamento holandês de 2003 a 2006 e atualmente é pesquisadora do American Enterprise Institute . Sua autobiografia, Infiel , foi um best-seller 2007 New York Times.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

HOJE (22/10) VOCÊ SALDAR OGUM OU JESUS?


Hoje começa mais uma novela na famigerada Rede Esgoto de Televisão enfocando a idolatria, e o tema não poderia ser mais propicio para o Brasil idólatra em que vivemos. Até aí tudo bem, a sociedade depravada quer isso mesmo. Mas, o estranho é que hoje muito da desqualificada audiência de mais esse lixo vai ser de pretensos "crentes", sim, eles vão estar assistindo e repetindo a saudação "salve" direcionada a Jorge, um nome lendário que ninguém sabe que existiu, mas que a Igreja Católica Romana criadora de fantoches fez de santo e as pessoas a ele se ajoelham e oram. 
Ontem em programas ditos joranalisticos já tinha atriz da novela dizendo que tem uma fé enorme...em jorge. É sabido, que a projeção de Jorge se deu e dá por aqui pelo Candomblé e a Umbanda, pois ali Jorge é a representação do espirito Ogum. Mas, sendo santo romano ou do Candoblé o fato é que a partir de hoje reinará em muitos lares de pretensos cristãos. E você de que lado estará?
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A IGREJA; O QUE É QUANDO SURGIU (FINAL)

Por Joelson Gomes


b-  A Promessa de Deus e a Igreja.
              Quando lemos as Escrituras notamos que os santos do AT aguardavam um certa promessa se cumprir, mas eles não viram a promessa e só estariam incluídos nela quando ela se concretizasse (Rm. 4.16; 9.8; 15.8; Hb. 11.19).  Esta promessa que Abraão esperou e não alcançou (Hb. 11.13), era o fato de se tornar o Pai da Fé (Rm. 4. 17-18),  a pátria celestial, possibilitada apenas com a vinda de Cristo e formação da Igreja (At. 13-23; 1Co. 1.20). É a chegada do evangelho que anuncia justamente essa promessa cumprida em Cristo (At. 13.32; Gl. 3. 16, 22, 29). Ora, esta promessa só se cumpre em Cristo, pois os que têm fé em Cristo, sendo descendentes carnais de Abraão ou não, se tornam seus filhos (Rm. 4. 11-25; Gl. 4. 28). Logo o cumprimento da promessa está no estabelecimento da Nova Aliança, quando Cristo  com seu sangue compra pessoas de todas as nações, formando assim a comunidade da fé. Logo, a Igreja que é o cumprimento desta promessa, então só nasce após o evento Cristo.
              É como se a salvação dos santos do AT só se concretizasse em Cristo, pois eles deveriam esperar a promessa se cumprir, promessa esta que estava encoberta na Antiga Aliança (Rm. 16. 24-25). Quando Cristo vem, seu sacrifício tem uma ação retroativa redimindo completamente também os santos do Antigo Testamento (Rm. 3. 22-25; Hb. 9.15).  Estes santos não podiam ser aperfeiçoados pelos sacrifícios da Antiga Aliança (Hb. 10.1-10). Com a vinda de Cristo, ao morrer e instituir a Nova Aliança, a Antiga, a da Lei, que tinha prazo de validade (Rm. 10.4; Gl. 3.23-26) expira (Hb. 8),  e todos os aqueles santos do AT alcançam  a promessa, são redimidos por Cristo, e entram na única Assembleia dos Santos, a Igreja do Senhor (Hb. 12.22-24). A Igreja hoje enche tudo como corpo de Cristo. Por isso ela existe a partir de Cristo que é Seu Cabeça, se existisse antes estava sem Cabeça (Ef. 1.22-23).
              Alguém pode dizer: “mas assim estaríamos fazendo diferença entre os santos do AT e os do NT”. Ora, é isso mesmo o que acontece. Aqui em concordo com CALVINO que comentando Hebreus 11.13 escreveu:
Em contrapartida concordo com aqueles que creem que se deve observar aqui uma certa diferença entre os pais e nós, o que exponho assim: Ainda que Deus tenha dado aos pais apenas uma prelibação de seu favor, a qual é derramada generosamente sobre nós; e ainda que ele lhes haja mostrado  apenas uma vaga imagem de Cristo, como que à distância, o qual é agora posto diante de nossos olhos para que o vejamos, todavia ficaram satisfeitos e nunca decairam de sua fé... Eles se    encontravam  longe desse elevado estado no qual Deus nos estabeleceu. Ainda que a mesma salvação lhes fora prometida, todavia as promessas não lhes foram reveladas com a mesma clareza que    desfrutamos  no reino de Cristo, senão que se contentaram em contemplá-las de longe.[1]
É claro que CALVINO tem toda razão ao pensar assim, ele está sendo completamente bíblico e acompanhando o pensamento do autor deste escrito aos Hebreus, pois ao terminar o capítulo 11 ele escreve sobre os santos e heróis da fé do AT:
              Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a             concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito,                para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados (Hb. 11.39-40).
              Mais uma vez o Reformador ajuda aqui: “Sei que Crisóstomo e alguns outros apresentam uma explicação diferenciada, mas o contexto claramente revela que a referência, aqui, é a diferença na graça que Deus concedeu aos fiéis sob [o regime de] a lei e o que ele nos concede hoje”.[2]
 
c) A palavra ekklêsia no AT.
    
              As vezes é apresentado o fato de que Lucas disse que Estevão usou a palavra Igreja para se referir aos santos do AT em Atos 7.28 como prova de que o povo de Israel era a Igreja antes de Cristo. Será que este fato não desmancha a tese de que a Igreja é algo do NT? Não!
              Já foi dito anteriormente[3] que os autores bíblicos do NT usavam a palavra ekklêsia para designar uma reunião, fosse ela cristã ou não (At. 19.32, 39, 41), e á assim que encontramos a palavra sendo usada para significar a reunião do povo de Israel no AT. Se o fato de Estevão usar a palavra ekklêsia aplicando-a a congregação de Israel faz com que Israel seja a Igreja, quando a Septuaginta usa a palavra ekklêsia como sinônimo de sinagoga faria de ekklêsia a mesma coisa que sinagoga:
·         Saíram todos os filhos de Israel, e a congregação (ekklêsia) se ajuntou (sinagôgê) perante o SENHOR em Mispa, como se fora um só homem, desde Dã até Berseba, como também a terra de Gileade. Os príncipes de todo o povo e todas as tribos de Israel se apresentaram na congregação (ekklêsia) do povo de Deus. Havia quatrocentos mil homens de pé, que puxavam da espada (Jz. 20.1-2-LXX).
·         E disseram: Há alguma das tribos de Israel que não tenha subido ao SENHOR a Mispa? E eis que ninguém de Jabes-Gileade viera ao acampamento, à assembleia (ekklêsia)... Por isso, a congregação (sinagôgê) enviou lá doze mil homens dos mais valentes e lhes ordenou, dizendo: Ide e, a fio de espada, feri os moradores de Jabes- Gileade, e as mulheres, e as crianças ... Toda a congregação (sinagôgê), pois, enviou mensageiros aos filhos de Benjamim que estavam na penha Rimom, e lhes proclamaram a paz (Jz. 21. 8, 10, 13, LXX).
E aqui o paralelismo hebraico é claro:
· Quase que me achei em todo mal que sucedeu no meio da assembleia (ekklêsia) e da congregação (sinagôgê).
              A mesma coisa acontece com o uso da palavra sinagoga. Todos sabem que a sinagoga é a reunião de estudo da Lei dos judeus, mas as vezes encontramos as reuniões dos gentios chamadas de sinagoga na tradução grega do AT (Gn. 28. 3; 35.11; Ez. 26.7; 27.27, 34; 38.15; Sf. 3.8). Mas, isso não faz da sinagoga judaica uma reunião de gentios.
              Não sei como alguém ainda usa o fato de Lucas (o autor de Atos que escrevia em grego)  ter chamado a reunião do povo hebreu de ekklêsia como argumento para dizer que Israel era o mesmo que a Igreja de Deus no AT. Este é um castelo de cartas fácil de derrubar. O que temos é apenas estilo de escrita sem nenhuma conotação teológica.
              Quem lê com atenção os primeiros capítulos da carta de Paulo aos Efésios acha com facilidade a resposta para a origem da Igreja. Ali está escrito que ela estava no secreto conselho de Deus desde antes da fundação do mundo (1.1-11), mas que foi revelada na História a partir das boas novas (evangelho) de Jesus Cristo seu Cabeça (1.22-23;3.1-13). A comunidade dos discípulos durante a vida de Cristo era o embrião da Igreja[4] revelada no Dia de Pentecoste como explica Martyn LLOYD-JONES: “E aqui, em Atos, capítulo 2, Deus está dando início à Igreja Cristã”.[5] Com quem concorda GUTHRIE: “O evento crítico no início da comunidade cristã foi, sem dúvida o Pentecostes. Somente a partir da descida do Espírito a comunidade foi efetivada”.[6] E Walter C. KAISER é claro ao dizer que foi o batismo com o Espírito Santo em Atos 2 que assinalou o começo da Igreja, pois quando todos foram cheios do Espírito deram início a ekklêsia de Cristo.[7]
              Bem, diante de “uma tal nuvem de testemunhas” resta você tirar suas conclusões.
NOTAS

[1] Hebreus (São Paulo: Paracletos, 1997), p. 319.
[2] Ibid, pp. 346-347
[3] Veja tópico I- Definição de Termos, letra b.
[4] GUTHRIE, Donald. Teologia do Novo Testamento (São Paulo: Cultura Cristã, 2007), p. 716; Augustus H. Strong também partilha da mesma ideia, para a Igreja esteve entre os discípulos de Cristo em germe, e foi inteiramente revelada após o Pentecoste (Teologia Sistemática, vl. 2. 2ª ed. Rev. (São Paulo: Hagnos, 2007), p. 1582ss
[5] Cristianismo Autêntico, vl. 1 (São Paulo: PES, 2005), p. 43.
[6] Teologia do Novo Testamento, p. 737; “O nascimento da Igreja ocorreu no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo, enviado pelo Pai e pelo Filho, desceu em poder sobre a comunidade dos discipulos reunida em oração no “cenáculo” em Jerusalém (At 2.1-4)”. STURZ, Richard J. Teologia Sistemática (São Paulo: Vida Nova, 2012), p. 552.
[7] O Plano da Promessa de Deus (São Paulo: Vida Nova, 2011), pp. 343-344.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

1. Um enfraquecimento habitual do mau desejo - John Owen


 


Toda lascívia (desejo mau) é um hábito depravado, que continuamente inclina o coração para o mal. Em Gênesis 6:5, temos uma descrição de um coração no qual o pecado não foi mortificado: "era continuamente mau todo desígnio do seu coração". Em todo homem não convertido, há um coração que não foi mortificado e que está cheio de uma variedade de desejos ímpios, e cada um desses desejos está continuamente clamando por satisfação.

Concentrar-nos-emos apenas na mortificação de um desses desejos. Este desejo (pense no pecado que mais lhe atrai) é uma disposição forte, habitual, e profundamente enraizada, que inclina a vontade e os sentimentos para certo pecado em particular. Uma das grandes evidências de tal desejo mau é a tendência para se pensar nas diversas maneiras de gratificá-lo (veja Rom. 13:14). Este hábito pecaminoso (ou seja, a lascívia ou desejo mau) opera violentamente. "Fazem guerra contra a alma" (1 Ped. 2:11) e buscam tornar a pessoa um "prisioneiro da lei do pecado" (Rom. 7:23). Ora, a primeira coisa que a mortificação efetua é o enfraquecimento deste desejo mau, de modo que se torna cada vez menos violento nos seus esforços para provocar e seduzir a pecar (veja Tiago 1:14,15).

A esta altura, é preciso que se faça uma advertência. Todos os desejos maus têm o poder de seduzir e provocar alguém a pecar, porém parece que não têm, todos eles, o mesmo poder. Há pelo menos duas razões pelas quais alguns desejos maus parecem ser muito mais fortes do que outros:

a)      Um desejo mau pode ser mais forte do que outros na mesma pessoa e também mais forte do que o desejo numa outra pessoa. Há muitas maneiras pelas quais este poder e vida extras são dados, mas especialmente isso ocorre por meio da tentação.

b)      A ação violenta de alguns desejos maus é mais óbvia do que a de outros. Paulo sublinha uma diferença entre impureza e todos os outros pecados. "Fugi da impureza! Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer, é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo" (1 Cor. 6:18). Isso significa que pecados dessa natureza são mais facilmente discerníveis do que outros. Contudo, uma pessoa com um amor desordenado pelo mundo pode estar debaixo do poder desse desejo mau (embora esse poder não seja tão óbvio) tanto quanto outro homem que é cativado por um desejo mau ou por uma imoralidade sexual.

A primeira coisa, então, que a mortificação efetua é um enfraquecimento gradual dos atos violentos do desejo mau, de modo que seu poder para impelir, despertar, perturbar e deixar a alma perplexa seja diminuído. Isso é chamado de crucificar "a carne, com as suas paixões e concupiscências" (Gál. 5:24). Esta linguagem é muito gráfica, como se pode ver na seguinte ilustração:

Pense num homem pregado numa cruz. A princípio o homem se esforçará, lutará e clamará com grande intensidade e poder. Depois de certo tempo, à medida em que vai perdendo sangue, seus esforços se tornam fracos e seus gritos baixos e roucos. Da mesma maneira, quando um homem se propõe a cumprir seu dever de mortificar o pecado, há uma luta violenta; todavia à medida em que a força e a energia do desejo mau se esvai, seus esforços e gritos diminuem. A mortificação radical e inicial do pecado é descrita em Romanos, capítulo 6, e especialmente no versículo 6:

"Sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem" - para qual propósito? ~ "para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos ao pecado como escravos".

Sem esta mortificação inicial e radical, realizada mediante união com Jesus Cristo, como descrita em Romanos, capítulo 6 (no próximo capítulo diremos mais sobre isto), uma pessoa não pode fazer progresso na mortificação de um único desejo mau. Uma pessoa pode dar pauladas no mau fruto de uma árvore má até ficar esgotada, porém enquanto a raiz permanecer forte e vigorosa nenhum grau de espancamento impedirá que a raiz produza mais frutos maus. Esta é a tolice que muitas pessoas praticam quando se dispõem com todo fervor a quebrar o poder de qualquer pecado em particular, sem realmente atacar e ferir a raiz do pecado (como acontece quando um cristão é unido a Jesus Cristo).

2. Uma contenda e uma luta constante contra o pecado

Quando o pecado é forte e vigoroso, a alma não consegue fazer grande progresso espiritual. A não ser que constante-mente lutemos contra o pecado, ele crescerá forte e vigorosa-mente, e nosso progresso espiritual será constantemente impedido. Há três coisas importantes no contendermos com o pecado. São as seguintes:

a)      Precisamos conhecer nosso inimigo e estar determinados a destruí-lo por todos os meios possíveis. Temos que lembrar que estamos num conflito acirrado e árduo, um conflito que tem sérias consequências. Precisamos estar alertas "conhecendo cada um a chaga do seu coração" (1 Reis 8:38). Precisamos guardar-nos de pensar levianamente nessa chaga. E de se lamentar que muitos tenham tão pouco conhecimento do grande inimigo que levam com eles nos seus corações. Isso os torna dispostos a se justificarem e a ficarem impacientes com qualquer reprovação ou admoestação, não se apercebendo de que estão correndo perigo (veja 2 Cron. 16:10).

b)      Precisamos nos esforçar para aprender os modos de agir de nosso inimigo, suas estratégias e os métodos de combate que ele emprega, as vantagens que ele procura obter e, até mesmo, detectar as ocasiões quando o seu ataque é mais bem sucedido. Quanto mais soubermos estas coisas, melhor estaremos preparados para lutar e contender com o pecado. Por exemplo: se observarmos que o inimigo repetidamente se aproveita de nós, e leva vantagem, em determinada situação, então procuraremos evitar essa situação. Precisamos buscar a sabedoria do Espírito contra as ciladas do pecado que habita em nós, para que possamos rapidamente discernir as sutilezas do nosso inimigo e frustrar seus planos maus contra nós.

c) Precisamos empenhar-nos diariamente para utilizar todos os meios que Deus ordenou para ferir e destruir o nosso inimigo (alguns desses serão mencionados mais adiante). Jamais devemos permitir que sejamos conduzidos a uma falsa segurança, pensando que nossos desejos pecaminosos já estão mortos devido estarem quietos. Em vez disso precisamos aplicar-lhes novos golpes e surras todos os dias (vejaCol. 3:5).

3. Sucesso na nossa oposição e no nosso conflito com o pecado que habita em nós. Quando há frequente sucesso contra qualquer desejo mau, isso é uma outra evidência da mortificação do pecado. Por sucesso queremos significar uma vitória sobre ele, acompanhada da intenção de dar sequência a essa vitória e atacar novamente. Por exemplo: quando o coração detecta as ações do pecado que habita em nós (procurando nos seduzir, nos atiçar, influenciar nossa imaginação, etc) ele imediatamente ataca o pecado, o expõe à lei de Deus e ao amor de Cristo; ele o condena e o executa.

Quando uma pessoa experimenta tal sucesso e sabe que a raiz do desejo mau foi, na verdade, enfraquecida, e que sua atividade foi contida de modo que não pode mais impedi-lo de cumprir o seu dever ou interromper sua paz como acontecia antes, então o pecado foi, em considerável medida, mortificado.

Este enfraquecimento da raiz do desejo mau é realizada principalmente pela implantação, continuidade e cultivo constante da vida espiritual da graça, que se coloca em oposição direta ao desejo mau, e lhe é destruidora (compare com o capítulo 4, pág. 110, item 2). Desse modo, pela implantação e pelo crescimento da humildade, o orgulho será enfraquecido. Da mesma maneira, a paciência tratará da paixão; a pureza da mente e da consciência cuidará da impureza; a mente celestial porá fim ao amor deste mundo, e assim por diante.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

10 MOTIVOS PORQUE NÃO SOMOS UMA IGREJA QUE GRITA

 Por Pr. Weber F. Alves  (Igreja Congregacional em Esperança/PB)
                Muitas pessoas procuram os membros de nossa igreja ou até mesmo a mim como pastor para saber por que as pessoas não “glorificam a Deus” nos nossos cultos. A pergunta sempre é mal elaborada, pois a verdadeira curiosidade é saber por que os irmãos não gritam expressões como “glória a Deus” e “Aleluias” durante os nossos cultos. Alguns na verdade usam adjetivos como “frios” ou “crus” para estigmatizar e caracterizar nossa vivência enquanto igreja. Nestes últimos dias estive pensando que tipo de resposta devemos dar àqueles que nos consideram frios por causa do tipo de nossa liturgia e alistei, ao menos, dez motivos que abaixo relaciono:
1.    Porque Deus não é surdo – Algumas pessoas não evangélicas quando visitam algumas igrejas e saem do culto perguntando por que os crentes gritam tanto. Eles saem da igreja afirmando: “Deus não é surdo!”. Precisamos admitir que, neste sentido, elas têm razão ao afirmar isso. Nossos gritos não convencem Deus de que o amamos. Na verdade, deste ponto de vista, eles são desnecessários, pois a Bíblia diz que Deus conhece até os nossos pensamentos (Sl. 139.4). É verdade que Deus não é surdo, mas me permita ironizar, afirmando que se ele tivesse tímpanos como os nossos, certamente, incorreria no risco de ficar surdo pelo modo como algumas igrejas e crentes o cultuam. Nossas orações devem vir de corações apaixonados, mas isso não significa que temos de gritar desesperados como se Deus não estivesse ouvindo. Lembro-me que quando Elias desafiou os 450 profetas de Baal foram eles quem gritaram desesperados ao seu falso deus, enquanto Elias fez uma simples e sincera oração (1 Reis 18.36-40). Deus atendeu a oração de Elias sem precisar de gritos, mas os profetas de Baal não tiveram resposta porque clamaram a um deus falso. No caso de Jesus, a única vez que ele bradou aos céus foi quando estava na cruz durante seu suplicio (Mateus 27.46,50).
2.    Porque somos uma comunidade educada – A gritaria em algumas igrejas, antes de expressar um culto fervoroso, pode expressam mau educação. As crianças ficam assustadas, espanta alguns visitantes, e alguns incrédulos decidem nunca mais pisar o pé naquele ambiente religioso. Nós somos uma comunidade educada, pois glorificamos a Deus sem precisar gritar desordenadamente. 
3.    Porque barulho não é sinônimo de unção, haja vista que lata vazia também faz barulho. Ao longo de minha vida cristã tenho percebido que muitos dos crentes que mais “glorificam” com gritos nos seus cultos também gritam descontroladamente com suas esposas em casa. O barulho nem sempre denuncia unção. Lembro-me de que quando o profeta Elias estava fugindo da rainha Jezabel e do rei Acabe, escondendo-se numa caverna no monte Horebe, Deus falou-lhe num cicio tranqüilo e suave (um sussuro amável), e não no meio de um vento, de um terremoto, ou de fogo que também passava (1 Reis 19.9-13). Deus estava respondendo a Elias de uma forma inesperada, no silêncio, contrariando todas as noções do profeta.
4.    Porque prezamos por um culto descente e ordeiro – O apóstolo Paulo instrui aos crentes em Corinto que o culto deve ser feito com ordem e decência. Naquela igreja era comum a desordem cúltica, onde diversos irmãos profetizavam, falam em línguas ou glorificam simultaneamente. O culto era uma gritaria desordenada e Paulo repreendeu os irmãos dizendo-lhes: “faça-se tudo decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14.40)
5.    Porque não há base bíblica para estarmos gritando no culto. Simplesmente nenhum texto da Bíblia nos manda cultuar desta forma e, mesmo os textos do Antigo Testamento que apresentam o povo de Israel bradando, não servem de amparo para justificar a gritaria durante os cultos, pois eles não são relatos de um culto litúrgico, nem são aparados por qualquer ordem bíblica para assim o fazermos.
6.    Porque não queremos que os incrédulos escarneçam de nosso culto. A Bíblia diz que a mensagem do evangelho é loucura para os que se perdem (1 Coríntios 1.18). Assim, é de se esperar que alguns não crentes zombem do evangelho naturalmente por não entender, por exemplo, que através da morte de Cristo temos vitória, vida e salvação. Eles não crêem e zombam. Desta zombaria, porém, não nos importamos, porque ela é bíblica. Mas não podemos comparar esta experiência com a daqueles não-crentes que zombam após um culto repleto de gritarias anarquizadas. Não queremos dar motivos para os incrédulos escarnecerem de nós por procedermos de maneira desordeira.
7.    Porque não queremos atrapalhar as pessoas de ouvir a Palavra de Deus. Já fui para ambientes evangélicos em que não consegui entender os louvores, nem muito menos a pregação por causa de irmãos “espirituais” que gritavam mais alto do que o volume do som. São ambientes onde as pessoas saem dizendo que o culto foi uma bênção, mas, quando perguntadas acerca da mensagem, dizem que não entenderam nada “porque o fogo desceu”. No nosso culto a mensagem da Palavra é o centro, o momento em que Deus nos fala e precisamos dar toda atenção. Podemos glorificar a Deus, mas de uma forma que não atrapalhe as pessoas de ouvir e entender a Palavra de Deus.
8.    Porque estas expressões de culto são como coreografias aprendidas e repetidas sem voluntariedade. Os irmãos aprendem isso na liturgia e estão automatizados. Não há espontaneidade e, quando a coisa funciona assim, não é culto, mas religião fria e automática. Não vem do coração, nem mesmo da cabeça, mas é automático com um motor de um automóvel.
9.    Porque queremos oferecer um culto racional a Deus. É isso que o apóstolo Paulo nos diz: “que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.” (Rm. 12.1). Um culto racional é um culto inteligente, no qual você entende a mensagem com a mente e absolve com o coração. Alguns cultos por ai a fora as pessoas não entendem o que está sendo pregado e gritam “Glória a Deus!”. Quantas vezes já ouvi alguém num certo culto glorificar a Deus depois do pregador dizer que o diabo veio para destruir. Quando isso acontece, o irmão não entendeu a mensagem ou não sabe o que significa “glória a Deus!”. É preciso dizer para ele: “não é ‘Aleluia!’ irmão, é ‘misericórdia!’. 
10. Porque não se mede um culto pela quantidade de glórias que se grita, mas pela sinceridade do adorador. No céu não existe um aparelho chamado “glorômetro”, com o qual Deus ou seus anjos meçam a qualidade dos cultos oferecidos. Por mais que possamos manifestar atos externos sinceros, é importante perceber que, às vezes, alguns irmãos procuram competir espiritualidade a partir da potência vocal de glórias no culto. Lembremo-nos que quem se preocupava em demonstrar espiritualidade eram os hipócritas (fariseus) e Jesus disse que sua recompensa era a dos homens (Mateus 6.5-8).
Entenda, querido leitor! Não estou querendo dizer que não devemos ter expressões de louvor a Deus; longe de mim querer partir para o outro extremo que proíbe qualquer tipo de manifestação espontânea de adoração. Encontramos na Bíblia diversos momentos de expressões verbais de culto e adoração pública. Nossa comunidade é o lugar onde estas experiências de louvor podem acontecer, mas sem perder a ordem do culto. Ninguém é proibido de louvar a Deus em nossa igreja, mas não queremos medir o poder de nossa igreja a partir da quantidade de gritos que emitimos durante o culto, nem queremos tornar isso uma coisa automática e desregrada.
Que o Senhor nos abençoe a ajude a trilharmos o caminho do equilíbrio.

terça-feira, 15 de maio de 2012

SEMINÁRIO CONGREGACIONAL FAZ MAIS UM AVANÇO MISSIONÁRIO


Nestes dias 04,05, e 06 do corrente o Seminário Congregacional em João Pessoa/PB em parceria com a 1a Igreja Congregacional em João Pessoa fizeram mais um avanço missionário. São sempre dois que o Seminário promove no ano. 
Com dois ônibus lotados (cerca de 105 pessoas), entre alunos do Seminário, e membros da 1a Igreja, e sob a direção do Pr. Bartolomeu Lopes (professor de evangelismo e discipulado), Joelson Gomes (diretor do Seminário), e Jairo Falcão (Diretor do departamento de missões da Igreja),  viajamos mais de 200 km, para a cidade de Nova Floresta e ali apoiamos a Igreja Congregacional Local. Foram dias de muito trabalho e bênção. Muitas vidas evangelizadas e muitas decididas. No sábado 06, fizemos um culto na praça central da cidade onde congregamos quase 500 pessoas para ouvir o evangelho pregado sem subterfugios e em alto e bom som. As crianças tiveram acompanhamento especial e receberam atendimento educativo e evangelistico. 
Destaque para a participação da classe de evangelismo e discipulado do Seminário que capitaneou a organização sob a orientação do professor e pastor Bartolomeu, e para a recepção preparada pela Igreja Congregacional em Nova Floresta, que esteve nos suprindo em tudo e não deixou faltar nada nos dias que estivemos ali. Agora começam os preparativos para o próximo avanço que será no segundo semestre e está quase tudo certo para ser no Ceará. Você vem?

Joelson Gomes
Diretor

sábado, 28 de abril de 2012

AS MANEIRAS E OS PORQUÊS DO TODO-PODEROSO


Allen M. Baker

"Tocar-se-á a trombeta na cidade, sem que o povo se estremeça? Sucederá algum mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?" (Am 3.6).

O enorme terremoto de 9.0 na escala Richter que abalou o Japão no dia 11 de março e o tsunami resultante, capturados tão espetacular e terrivelmente nos vídeos, produziu até 19 de março 18.000 mortes, não mencionando o possível desastre nuclear na usina de Fukushima, que poderia causar milhares de outras mortes.
Como devemos ver essas coisas? São meros acidentes? É apenas um terremoto, ou seja, um fenômeno natural explicado apenas em termos científicos? Isso é um julgamento de Deus sobre o Japão, uma nação orgulhosa em que somente 1% dos habitantes são cristãos? Devemos nós, como um budistas pode fazer, apenas aceitar isso como destino, admitindo que ninguém pode controlá-lo, ou devemos simplesmente deixar para lá?
Como em qualquer circunstância da vida, nossa única fonte é a Bíblia. E o que ela diz sobre catástrofes? João Calvino, em um comentário sobre Amós 3.6, diz que o som de uma trombeta recordava a Israel que Deus não fazia nada sem primeiro revelar seus segredos aos seus profetas. Nas palavras de Calvino: "O povo de Israel foi extremamente estúpido em não se arrepender depois de tantos avisos. Permaneceram em sua perversidade, embora tenham sido constrangidos pelos mais poderosos meios". Calvino prossegue e diz que Amós nos recorda que as calamidades não acontecem por acaso... que o governo deste mundo é realizado por Deus e que nada acontece senão pelo seu poder. A palavra (no hebraico rah) traduzida neste versículo por "mal" significa qualquer coisa adversa a nós. É a mesma palavra hebraica usada em Isaías 45.6-7, onde o profeta diz: "Eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas". A versão bíblica em português traduz "rah" em ambos os versículos pela palavra "mal". E faz isso em vários outros versículos: "a árvore do conhecimento do bem e do mal" (Gn 2.9); "Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal!" (Is 5.20); "e ficareis consolados do mal que eu fiz vir sobre Jerusalém, sim, de tudo o que fiz vir sobre ela" (Ez 14.22).
Portanto, podemos descartar várias possibilidades quanto ao porquê da terrível devastação ocorrida no Japão. Primeira, isso não for mero acidente. Não foi apenas um terremoto que pode ser explicado em termos científicos. É claro que há uma explicação científica para o que aconteceu. De modo algum, os crentes devem depreciar os meios secundários que Deus designou. Deus opera pela maneira como criou e, agora, sustenta toda a sua criação (At 17.26). E a razão fundamental para catástrofes naturais é a queda no pecado realizada por Adão e Eva. Isso tornou o mundo rendido ao pecado, corrompido e necessitado de redenção, algo que Deus promete repetidas vezes em sua Palavra (Is 66.22-24; Rm 8.20-23; 2 Pe 3.13). Segunda, nós rejeitamos a explicação budista e sua conseqüente reação estóica. Certamente, devemos lamentar e entristecer-nos pela perda de vidas, bem como devemos orar pelo povo do Japão e pelos que realizam o trabalho de socorro. Devemos contribuir financeiramente para esse trabalho.
No entanto, a catástrofe foi um julgamento de Deus sobre pessoas de coração duro e orgulhosas? É claro de Amós, Isaías, Ezequiel e todos os profetas que Deus trouxe julgamento sobre as nações de seus dias porque elas estavam longe dele, envolvidas em todas as maneiras de comportamento licencioso, ímpio e destrutivo, colocando-se a si mesmos contra Deus. Também sabemos que Paulo declarou que a ira de Deus é revelada (tempo presente, voz passiva, modo indicativo de apokalupto, de onde temos nossa palavra apocalipse) do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade pela injustiça (Rm 1.18). Em outras palavras, Deus está sempre trazendo sua ira ao mundo porque persistimos no viver ímpio. Mas, podemos dizer sem equívocos que Deus está julgando o Japão por causa de rejeição perpétua das ofertas de graça por meio de muitos japoneses crentes e missionários que trabalham diariamente para levar o Japão a Cristo?
Para responder essa pergunta, precisamos primeiramente considerar uma situação semelhante trazida à atenção de Jesus. Em Lucas 13.1-5, falaram a Jesus sobre alguns galileus cujo sangue foi misturado, pelo ímpio Pôncio Pilatos, com os sacrifícios que eles realizavam. E, por uma boa medida, esses indagadores de Jesus queriam o que ele pensava sobre o recente acidente de construção em que dezoito pessoas foram mortas quando uma torre desabou sobre eles. A pergunta era: "Você acha que esses galileus eram maiores pecadores do que todos os outros galileus porque sofreram esse destino? E os que morreram no acidente de construção eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém?" Adequando essa pergunta ao nosso contexto moderno, diríamos: a nação japonesa é mais ímpia e merecedora do julgamento de Deus do que somos nos Estados Unidos ou na Inglaterra? Aqueles que morreram no terremoto, no tsunami ou de exposição à radiação eram mais ímpios do que nós o somos? A maneira como Jesus respondeu essas perguntas nos dá a resposta que precisamos em nossa situação específica. Jesus disse aos seus questionadores: "Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis". O que Jesus estava dizendo? Estava respondendo as perguntas por focalizar-se no que julga mais importante. A questão não é quão ímpias essas pessoas tinham sido. Elas não eram mais ímpias do que qualquer outra pessoa. Quando comparados com a lei de Deus, descobrimos que ninguém é justo, nem mesmo um (Rm 30.10, ss.). Temos uma tendência de especular sobre essas coisas, mas elas não são a preocupação no coração de Jesus. Ele muda o assunto diretamente para seus questionadores, procurando incutir-lhes a verdade de que, se não se arrependessem, todos pereceriam igualmente.
Portanto, devemos ver qualquer catástrofe como uma chamada de "despertamento" divina e graciosa. Devemos ver a Deus em todas essas coisas. Essas calamidades servem como advertências para que todas as pessoas parem e perguntem a si mesmas: "E se meu carro, com meu querido filhinho dentro, tivesse sido levado pelas ondas gigantes de cinco metros de altura, enquanto o limpador de pára-brisa traseiro limpava o vidro? O que nos teria acontecido? Aonde iríamos depois da morte? Essas são as perguntas que nós e todas as pessoas devemos fazer a nós mesmos! Não podemos dizer com certeza que Deus está executando vingança sobre o Japão. Evidentemente, Deus fez isso a nações, conforme as Escrituras, e isso deixa claro o princípio bíblico de que ele está revelando continuamente sua ira no mundo. É melhor deixarmos essas questões nas coisas secretas de Deus (Dt 29.29).
E por que Deus mostra seu magnífico e grandioso poder de maneiras terríveis? Em última análise, ele faz tudo para o louvor e glória de sua graça (Ef 1.3-14); e, freqüentemente, suas maneiras grandiosas e terríveis humilham as pessoas e nações, atraindo muitos a Cristo, para obterem a salvação eterna. Lembro-me da haver orado pela Nicarágua depois do terremoto de 1973, pedindo a Deus que trouxesse aquelas queridas pessoas a Cristo como resultado da devastação. Quase imediatamente após o terremoto, milhões de nicaragüenses começaram a vir a Cristo, e o movimento continua até hoje. Que Deus faça essa mesma obra no Japão. E, por favor, ore pelo Japão, pela igreja japonesa, por seus pastores e missionários nativos que têm labutado fielmente, durante tantos anos, e visto tão pouco fruto. Talvez essas coisas aconteceram num tempo como este para que haja uma grande colheita de almas nesta nação que tem feito tanto no aspecto econômico, mas permanece nas trevas do xintoísmo e do culto aos ancestrais.

terça-feira, 24 de abril de 2012

PRECISAMOS DE HOMENS DE DEUS

Por A. W. Tozer
Vigiai, estai firmes na fé, portai-vos varonilmente e fortalecei-vos (I Cor 16.13).
A igreja, neste momento, precisa de homens, o tipo certo de homens, homens ousados. Afirma-se que necessitamos de avivamento e de um novo movimento do Espírito; Deus, sabe que precisamos de ambas as coisas. Entretanto, Ele não haverá de avivar ratinhos. Não encherá coelhos com seu Espírito Santo.
A igreja suspira por homens que se consideram sacrificáveis na batalha da alma, homens que não podem ser amedrontados pelas ameaças de morte, porque já morreram para as seduções deste mundo. Tais homens estarão livres das compulsões que controlam os homens mais fracos. Não serão forçados a fazer as coisas pelo constrangimento das circunstâncias; sua única compulsão virá do íntimo e do alto.
Esse tipo de liberdade é necessária, se queremos ter novamente, em nossos púlpitos, pregadores cheios de poder, ao invés de mascotes. Esses homens livres servirão a Deus e à humanidade através de motivações elevadas demais, para serem compreendidas pelo grande número de religiosos que hoje entram e saem do santuário. Esse homens jamais tomarão decisões motivados pelo medo, não seguirão nenhum caminho impulsionados pelo desejo de agradar, não ministrarão por causa de condições financeiras, jamais realizarão qualquer ato religioso por simples costume; nem permitirão a si mesmos serem influenciados pelo amor à publicidade ou pelo desejo por boa reputação.
Muito do que a igreja faz em nossos dias, ela o faz porque tem medo de não fazê-lo. Associações de pastores atiram-se em projetos motivados apenas pelo temor de não se envolverem em tais projetos.
Sempre que o seu reconhecimento motivado pelo medo (do tipo que observa o que os outros dizem e fazem) os conduz a crer no que o mundo espera que eles façam, eles o farão na próxima segunda-feira pela manhã, com toda a espécie de zelo ostentoso e demonstração de piedade. A influência constrangedora da opinião pública é quem chama esses profetas, não a voz de Jeová. 
A verdadeira igreja jamais sondou as expectativas públicas, antes de se atirar em suas iniciativas. Seus líderes ouviram da parte de Deus e avançaram totalmente independentes do apoio popular ou da falta deste apoio. Eles sabiam que era vontade de Deus e o fizeram, e o povo os seguiu (às vezes em triunfo, porém mais freqüentemente com insultos e perseguição pública); e a recompensa de tais líderes foi a satisfação de estarem certos em um mundo errado. 
Outra característica do verdadeiro homem de Deus tem sido o amor. O homem livre, que aprendeu a ouvir a voz de Deus e ousou obedecê-la, sentiu o mesmo fardo moral que partiu os corações dos profetas do Antigo Testamento, esmagou a alma de nosso Senhor Jesus Cristo e arrancou abundantes lágrimas dos apóstolos. 
O homem livre jamais foi um tirano religioso, nem procurou exercer senhorio sobre a herança pertencente a Deus. O medo e a falta de segurança pessoal têm levado os homens a esmagarem os seus semelhantes debaixo de seus pés. Esse tipo de homem tinha algum interesse a proteger, alguma posição a assegurar; portanto, exigiu submissão de seus seguidores como garantia de sua própria segurança. Mas o homem livre, jamais; ele nada tem a proteger, nenhuma ambição a perseguir, nenhum inimigo a temer. Por esse motivo, ele é alguém completamente descuidado a respeito de seu prestígio entre os homens. Se o seguirem, muito bem; caso não o sigam, ele nada perde que seja querido ao seu coração; mas, quer ele seja aceito, quer seja rejeitado, continuará amando seu povo com sincera devoção. E somente a morte pode silenciar sua terna intercessão por eles. 
Sim, se o cristianismo evangélico tem de permanecer vivo, precisa novamente de homens, o tipo certo de homens. Deverá repudiar os fracotes que não ousam falar o que precisa ser externado; precisa buscar, em oração e muita humildade, o surgimento de homens feitos da mesma qualidade dos profetas e dos antigos mártires. Deus ouvirá os clamores de seu povo, assim como Ele ouviu os clamores de Israel no Egito. Haverá de enviar libertação, ao enviar libertadores. É assim que Ele age entre os homens. 
E, quando vierem os libertadores... serão homens de Deus, homens de coragem. Terão Deus ao seu lado, porque serão cuidadosos em permanecer ao lado dEle; serão cooperadores com Cristo e instrumentos nas mãos do Espírito Santo...

terça-feira, 10 de abril de 2012

A CONFUSÃO EVANGÉLICA DIANTE DO ANTIGO TESTAMENTO


Por Luiz Sayão
A igreja evangélica brasileira é uma das mais dinâmicas e criativas do mundo. Por essa razão seu crescimento tem sido extraordinário. Todavia, uma igreja jovem e efervescente tem dificuldades de doutrinar e discipular seus novos membros. Essa é umarealidade na igreja brasileira.
É notório que o uso do Antigo Testamento na prática e na liturgia eclesiástica brasileira tem crescido de maneira substancial. Principal no contexto de louvor e adoração a ênfase vétero-testamentária é mais do que expressiva. E como percebeu Lutero, a teologia de uma igreja está em seus hinos. Afinal, o que está acontecendo? Para onde estamos indo?
Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que o Antigo Testamento representa um fascínio para o povo brasileiro. É repleto de histórias concretas, circunscritas na vida real do povo, no cotidiano de gente comum. É muito mais fácil emocionar-se com uma narrativa como a de Jonas ou de Davi do que acompanhar o argumento de Paulo em vários textos de Romanos. Além disso, o povo brasileiro tem pouca história e raízes muito recentes. O Antigo Testamento, com a rica história do povo de Israel, traz uma espécie de identificação com o povo de nosso país. Talvez isso explique porque tantos brasileiros evangélicos queiram ou procurem ser mais judeus. Em terceiro lugar, devemos considerar a realidade de que a igreja evangélica brasileira quase não tem símbolos ou expressão artística. A maioria dos símbolos cristãos históricos (catedrais, cruzes, etc.) tem identificação católica na realidade nacional. Assim, os evangélicos buscam símbolos para expressar sua fé, e acabam geralmente escolhendo símbolos judaicos ou véterotestamentários (menorá, estrela de Davi, e etc.).
Este encontro brasileiro-judaico tem muitas facetas positivas: Retomamos uma alegria comemorativa da fé, trazemos a verdade espiritual para a realidade concreta, dificilmente teremos uma igreja anti-semita, enxergamos necessidades sociais e políticas pela força do AT. Todavia, também estamos andando em terreno perigoso e delicado. Algumas considerações são importantes para que a igreja brasileira não perca o rumo por problemas de ordem hermenêutica. Aqui vão algumas sugestões:
1. Nem todo texto bíblico do AT pode ser visto como normativo. A descrição da vida de um servo de Deus do AT não é padrão para nós sempre. Quando Abraão mente em Gênesis, a descrição do fato não o torna uma norma. A poligamia de Salomão, a mentira das parteiras no Egito e o adultério de Davi não podem servir de desculpas para os nossos pecados.
2. Não podemos cantar todo e qualquer texto do AT. É preciso observar quem está falando no texto bíblico. Sem observarmos quem fala tiraremos conclusões enganosas. Isso é fundamental para se entender o livro de Eclesiastes. No caso de Jó 1.9-10, por exemplo, temos registradas as palavras de Satanás. Isto é fato até no caso do Novo Testamento (veja Jo 8.48).
3. Devemos Ensinar que Muito da Teologia do AT é Ultrapassada. Jesus deixo claro que estava trazendo uma mensagem complementar e superior em relação à antiga aliança. Se não entendermos isto, voltaremos ao legalismo farisaico tão questionado por nosso Senhor. Textos como Números 15.32,36 revelam um exemplo daquilo que não tem mais valor na prática da nova aliança. Todos os elementos cerimoniais da lei não podem mais fazer parte da vida da igreja cristã, pois apontavam para a realidade superior, que se cumpre em Cristo (Cl 2.16-18). Sábados, festas judaicas, dias sagrados, sacrifícios e outros elementos cerimoniais não fazem parte da prática cristã neotestamentária.
4. Antes de Pregar ou Cantar um Texto do AT é Preciso Entendê-lo. Nem sempre é fácil entender um texto do Antigo Testamento. Muitos textos precisam ser bem estudados, compreendidos em seu contexto e em sua limitação circunstancial e teológica. Veja por exemplo o potencial destruidor do mau uso de um texto como o Salmo 137.9. Se o intérprete não entender que o texto fala da justiça retributiva divina dada aos babilônios imperialistas, as crianças da igreja correrão sério perigo!
5. Devemos Ensinar que Vingança e Guerra não são Valores Cristãos. Jesus ordenou que devemos amar até mesmo aqueles que nos odeiam. A justiça imprecatória não faz parte da Teologia do NT. Há vários salmos que dizem isso, mas tal realidade compreende-se no contexto do AT e não pode ser praticada na igreja cristã. Não podemos cantar "persegui os inimigos e os alcancei, persegui-os e os atravessei" (Sl 18.37.38), quando o Senhor Jesus ordena que devemos perdoar e amar os nossos inimigos (Mt 5.44,45). Hoje já existe até gente “amaldiçoando” outros em nome de Jesus! Teremos uma “violência cristã”?
6. Enfatizemos a Verdade de que a Adoração do NT é Superior. O Novo Testamento nos ensina que a adoração legítima independe de lugar, de monte, de cidade e de outros elementos materiais (Jo 4). Jesus insiste em afirmar que Deus procura quem “o adore em Espírito e em verdade”. A tradição evangélica sempre louvou a Deus por seus atos e atributos. Atualmente estamos cada vez mais enfatizando “o monte santo”, “a cidade sagrada”, “a casa de Deus”, “a sala do trono”. Nós somos o “templo de Deus”. Os elementos materiais poucam importam na adoração genuína. É preciso retomar o caminho correto.
7. Devemos ensinar que ser Judeu não torna ninguém melhor do que os outros. Alguns evangélicos entendem que “ser judeu” ou “judaizado” os torna de alguma forma “espiritualmente melhor”. O rei Manassés, Anás e Caifás eram judeus! Já há quem expulse demônios em hebraico! Em Cristo, judeus e gentios são iguais perante Deus. Na verdade “não há judeu nem grego” (Gl 3.28). A igreja cristã já pecou por seu anti-semitismo do passado. Será que irá pecar agora por tornar-se judaizante? Devemos amar judeus e gentios de igual modo. Além disso, podemos e devemos ser cristãos brasileiros. Não precisamos nos tornar judeus para ter um melhor “pedigree” espiritual.

sábado, 10 de março de 2012

ABORTO

 

AUXILIO  A LIÇÃO 02, ABORTO

A BÍBLIA E O TESTEMUNHO DA IGREJA

Por George W Knight III


Aborto: como a Palavra de Deus considera uma criança não nascida?Usamos aqui o termo “aborto” para indicar a expulsão de uma criança viva do ventre materno pela instrumentalidade humana, com o objetivo de exterminar a criança. O motivo da nossa preocupação, como cristãos, está no próprio fato de ser ela uma criança ainda não nascida cuja vida é aniquilada. É inevitável e apropriado que os cristãos abordem este assunto a partir do ponto de vista divino quanto à vida humana, expresso no sexto mandamento: “Não matarás” (Êx 20.13).

O fundamento para a proibição de tirar intencionalmente a vida humana está nas palavras: “porque Deus fez o homem segundo a Sua imagem” (Gn 9.6). Esta mesma passagem não proíbe, antes autoriza o homem a matar outras criaturas para que ele mesmo possa viver. O homem, entretanto, feito à imagem de Deus, não pode ser morto.

A pergunta crucial.

A pergunta, posta diante de nós é se a criança é ou não um homem, uma pessoa humana à imagem de Deus, e se o aborto, por isso, transgride ou não este mandamento primário de Deus.

Como cristãos que estão debaixo da autoridade da Palavra de Deus, voltamo-nos para ela e indagamos que evidências, diretas ou indiretas, ela pode nos fornecer sobre o aborto, e, em particular sobre como as Escrituras consideram a criança.

Nossa investigação defronta-se, inevitavelmente, com as seguintes questões: Que diz a Escrituras sobre a criança? Considera-a como humana, ou não? As Escrituras indicam quando
é que se inicia a vida humana, i.e., quando é que o homem começa a ser uma pessoa à imagem de Deus?

Êxodo 21.22-25

Esta passagem é citada com freqüência entre os primeiros pontos de apoio à nossa questão. Fala a respeito de se ferir uma mulher grávida de sorte que ela aborte. Segue-se, então, uma frase tanto na forma negativa quanto na positiva: “porém sem maior dano” e “mas se houver dano”. Com referência à última segue-se a lei da igualdade de punição: “então darás vida por vida…”.

A questão exegética é se a própria criança está, ou não, incluída nas palavras: “mas se houver dano”. Se estiver — como penso que está — então esta passagem é uma prova que a morte de uma criança é considerada como a morte de um ser humano, o que, na teocracia do Israel do Velho Testamento, é punível com “vida por vida”. Tal correlação deveria salientar que a criança é considerada como humana. Claro que, não sendo este um aborto premeditado, só se pode concluir que se um “aborto acidental” foi assim considerado, quanto mais o aborto intencional estará sujeito à pena de morte.

Por causa da argumentação, deve-se considerar a situação oposta em que a criança não está incluída na lei da igualdade de punição. Seria isso uma prova de que o Velho Testamento considerava a criança menos que humana e que o aborto não é uma violação da santidade da vida humana? Pode ser, e assim se argumenta, mas não é isso que necessariamente se deduz.

Tal interpretação poderia apenas indicar que o causador do dano não era tido como responsável por uma morte indireta e não intencional. Noutro lugar o Velho Testamento adota essa posição quanto ao homicídio involuntário, sem contudo implicar que tirar não intencionalmente a vida humana não seja culpável. O mesmo pode se dizer desta passagem e da questão do aborto intencional.

Salmo 139.13-16.

Este é um exemplo extraordinário daquelas passagens que se referem a uma pessoa em seu estado fetal. Entre outras frases significativas encontra-se o versículo 13: “entreteceste-me no ventre de minha mãe”. A importância desta declaração reside no fato de que o salmista refere-se a si mesmo na sua identidade humana pessoal embora estivesse no ventre de sua mãe: “entreteceste-me”. Ele refere-se a si mesmo, antes e depois do nascimento, na sua unidade psicossomática. Aquele que agora dá graças a Deus, no versículo 14, é o mesmo que foi maravilhosamente formado em secreto no ventre da sua mãe, versículos 13 a 15.

Salmo 51.5.

Aqui se esclarece a identificação da humanidade da criança, e, ao mesmo tempo, se exclui qualquer tendência para se dizer que isso não passa de uma mera licença poética. “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe”. A afirmação de Davi é que ele estavamarcado e caracterizado pelo pecado desde o momento da sua concepção no ventre da mãe. Falar sobre alguém no instante da sua concepção, e fazê-lo nos termos da sua pecaminosidade, é afirmar asua humanidade desde o momento da concepção. A pessoa que fala de si mesma como o humano “eu” que ao nascer estava em iniqüidade (v.5a) é a mesma que fala de si (“me”) quando foi concebida em pecado pela sua mãe (v.5b).

A iniqüidade e o pecado não são nem o ato sexual da concepção nem o ato do nascimento, mas a pecaminosidade inerente ao salmista e a todas as pessoas desde o momento de sua existência como ser humano. Davi descreve aquele momento de existência como o instante em que sua mãe o concebeu.

Jeremias 1.4, 5

“A mim veio, pois, a palavra do SENHOR, dizendo: Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e antes que saísses da madre, te consagrei e te constitui profeta às nações”. Esta passagem começa com a afirmação de que o Senhor conhecia a Jeremias antes mesmo de formá-lo no ventre.

Tais expressões como conhecer, formar e consagrar indicam que Jeremias é considerado, pelo próprio Deus, como um ser humano enquanto no ventre. O fato de que Deus o conhecia ou o escolheu mesmo antes de sua existência começar no ventre não nega o fato de que o que estava formado no ventre era uma pessoa humana, reconhecida e considerada por Deus como tal.

Lucas 1.24-26
Esta é uma das mais relevantes passagens do Novo Testamento. O versículo 41 diz que a criança de Isabel lhe estremeceu no ventre quando ela ouviu a saudação de Maria. “A criança estremeceu de alegria dentro em mim” (v.44). Temos aqui um feto de seis meses descrito nos termos da emoção humana da alegria. Esta mesma criança é tratada, no versículo 36, como “um filho”.

A Encarnação

A completa humanidade de nosso Senhor é também um fato de grande importância para o nosso estudo. Mesmo a singularidade da encarnação do Filho de Deus como o Deus-homem serve em si mesma, associada à sua identificação com a nossa natureza humana, para auxiliar à nossa pesquisa neste ponto.

O anjo declarou a Maria que ela conceberia e daria a luz a um filho ao qual chamaria de Jesus (Lc 1.31). Maria perguntou naturalmente: “Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?” (v.34). O anjo lhe disse como resposta: “Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a Sua sombra; por isso também o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus” (v.35).
Para encorajar Maria a crer na promessa destas palavras, o anjo continuou: “E Isabel, tua parenta, igualmente concebeu um filho na sua velhice, sendo este já o sexto mês para aquela que diziam ser estéril. Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas” (vv.36,37).

A American Standard Version (Versão Americana Padrão) traduz a palavra grega gennao, que significa conceber, por “dar à luz”. Embora a palavra possa significar gerar, conceber, ou dar à luz, na minha avaliação o sentido do contexto é gerar ou conceber. A palavra aparece na resposta do anjo à pergunta de Maria sobre como poderia ela conceber e não como poderia ela dar à luz. A própria concepção de Isabel é apresentada como um encorajamento (v.36). Certamente que o contexto está voltado para a idéia de concepção. A primeira parte do versículo 35, referente à atividade do Espírito Santo, tem também em vista a perspectiva de concepção e, por fim, o paralelo de Mateus 1.20 (“o que nela foi gerado é do Espírito Santo”), usa, aparentemente, o mesmo verbo gennao — que obviamente significa e é traduzido por conceber ou ser gerado — com o mesmo sentido de Lucas 1.35.

Como será que Maria, que não conhece nenhum homem, conceberá tal criança? Por que e como será aquele filho um ente santo, o Filho de Deus? Lucas diz que a inferência é auto evidente.Porque o Espírito Santo descerá sobre ela e o poder do Altíssimo a envolverá com a Sua sombra, por causa disso (grego: dio) ocorre a encarnação (v.35).

Se a humanidade de Jesus, Sua encarnação em forma humana como Filho de Deus, concretiza-se quando Maria concebe pelo Espírito Santo — e se isso é verdadeiro n’Aquele que se fez semelhante a nós em todas as coisas, exceto no pecado — não seria isso mais uma indicação de que a nossa humanidade, semelhantemente, começa com a nossa concepção? A Igreja Cristã de todas as épocas tem confessado pelo Credo Apostólico que Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, “foi concebido por obra do Espírito Santo”.

A Comprovação Bíblica.

Todas as comprovações das Escrituras não são apenas essas. A Bíblia é unânime ao considerar o nascituro como um ser humano e por considerá-lo assim, isso indica que o aborto voluntário é a violação de um dos mandamentos de Deus: “Não matarás”. Pode-se objetar que tal comprovação é esparsa e indireta; não é uma proibição explícita. Mas isso não é, em si mesmo, uma objeção substancial. Muitas das provas bíblicas sobre tantas e importantes questões se apresentam de modo semelhante. Isso faz parte da natureza da revelação bíblica. A falta de clareza não pode ser usada para forçar a aceitação do aborto, ou a sua indiferença.

Na Bíblia, a dispersão de referência quanto a uma determinada questão só vem indicar uma forte e subjacente comprovação ou mesmo concordância com ela. (Considere-se a virtual omissão de referência à Ceia do Senhor nas epístolas. Não fosse o problema ocorrido em Coríntios não haveria nenhuma outra). A falta de referência explícita quanto ao aborto só pode, também, indicar que as Escrituras entendem que ele já foi levado em consideração na proibição geral de homicídio.


O Testemunho da Igreja

A oposição ao aborto tem sido uma das características da Igreja Cristã ao longo de toda a sua história até aos dias presentes. Isso pode ser visto nas declarações da igreja dos primeiros dias, que continuam presentes na Igreja Católica Romana hoje, num relatório da Igreja Luterana do Sínodo do Missouri e no impacto que o cristianismo tem exercido nas leis das nações chamadas cristãs até bem recentemente. De modo geral as leis estaduais nos Estados Unidos proibiam o aborto, exceto para salvar a vida da mãe até a crescente onda para “liberar” tais leis. Os modernos proponentes do aborto, tanto os eclesiásticos quanto os ministeriais,estão apenasconfirmando o espírito dessa era e ao fazê-lo negam a histórica posiçãocristã. Seus pronunciamentos encaixam-se na convulsão atual pelos “direitos” da mãe,enquanto ignoram os direitos do filho. Apresentamos aqui algumas das declarações da igreja primitiva como demonstração da compreensão cristã do aborto:

Barnabé, 19.5: “não procurarás o aborto, não cometerás infanticídio”.

O Didaquê, Cap. II: “Não assassinarás uma criança pelo aborto, nem matarás aquele que está gerado”.

Tertuliano, Apologia IX: “Em nosso caso, sendo o assassinato totalmente proibido, não podemos destruir nem mesmo o feto no ventre... Impedir um nascimento é tão somente um homicídio mais rápido; não há diferença entre tirar-se a vida do que é nascido ou do que virá a nascer. Já é homem, aquele que se tornará em um; na semente, já tendes o fruto”.

As Constituições Apostólicas, VII.iii: “Não matarás o teu filho pelo aborto, nem
matarás aquele que está gerado: porque tudo que tem forma e recebeu uma alma de Deus, se
for assassinado, será vingado, por ter sido injustamente aniquilado”.