AS MANEIRAS E OS PORQUÊS DO TODO-PODEROSO

Allen M. Baker
"Tocar-se-á a trombeta na cidade, sem que o povo se estremeça? Sucederá algum mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?" (Am 3.6).
O
enorme terremoto de 9.0 na escala Richter que abalou o Japão no dia 11
de março e o tsunami resultante, capturados tão espetacular e
terrivelmente nos vídeos, produziu até 19 de março 18.000 mortes, não
mencionando o possível desastre nuclear na usina de Fukushima, que
poderia causar milhares de outras mortes.
Como
devemos ver essas coisas? São meros acidentes? É apenas um terremoto,
ou seja, um fenômeno natural explicado apenas em termos científicos?
Isso é um julgamento de Deus sobre o Japão, uma nação orgulhosa em que
somente 1% dos habitantes são cristãos? Devemos nós, como um budistas
pode fazer, apenas aceitar isso como destino, admitindo que ninguém pode
controlá-lo, ou devemos simplesmente deixar para lá?
Como
em qualquer circunstância da vida, nossa única fonte é a Bíblia. E o
que ela diz sobre catástrofes? João Calvino, em um comentário sobre Amós
3.6, diz que o som de uma trombeta recordava a Israel que Deus não
fazia nada sem primeiro revelar seus segredos aos seus profetas. Nas
palavras de Calvino: "O povo de Israel foi extremamente estúpido em não
se arrepender depois de tantos avisos. Permaneceram em sua perversidade,
embora tenham sido constrangidos pelos mais poderosos meios". Calvino
prossegue e diz que Amós nos recorda que as calamidades não acontecem
por acaso... que o governo deste mundo é realizado por Deus e que nada
acontece senão pelo seu poder. A palavra (no hebraico rah)
traduzida neste versículo por "mal" significa qualquer coisa adversa a
nós. É a mesma palavra hebraica usada em Isaías 45.6-7, onde o profeta
diz: "Eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz e crio as trevas;
faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas". A
versão bíblica em português traduz "rah" em ambos os versículos
pela palavra "mal". E faz isso em vários outros versículos: "a árvore do
conhecimento do bem e do mal" (Gn 2.9); "Ai dos que ao mal chamam bem e
ao bem, mal!" (Is 5.20); "e ficareis consolados do mal que eu fiz vir
sobre Jerusalém, sim, de tudo o que fiz vir sobre ela" (Ez 14.22).
Portanto,
podemos descartar várias possibilidades quanto ao porquê da terrível
devastação ocorrida no Japão. Primeira, isso não for mero acidente. Não
foi apenas um terremoto que pode ser explicado em termos científicos. É
claro que há uma explicação científica para o que aconteceu. De modo
algum, os crentes devem depreciar os meios secundários que Deus
designou. Deus opera pela maneira como criou e, agora, sustenta toda a
sua criação (At 17.26). E a razão fundamental para catástrofes naturais é
a queda no pecado realizada por Adão e Eva. Isso tornou o mundo rendido
ao pecado, corrompido e necessitado de redenção, algo que Deus promete
repetidas vezes em sua Palavra (Is 66.22-24; Rm 8.20-23; 2 Pe 3.13).
Segunda, nós rejeitamos a explicação budista e sua conseqüente reação
estóica. Certamente, devemos lamentar e entristecer-nos pela perda de
vidas, bem como devemos orar pelo povo do Japão e pelos que realizam o
trabalho de socorro. Devemos contribuir financeiramente para esse
trabalho.
No entanto, a catástrofe
foi um julgamento de Deus sobre pessoas de coração duro e orgulhosas? É
claro de Amós, Isaías, Ezequiel e todos os profetas que Deus trouxe
julgamento sobre as nações de seus dias porque elas estavam longe dele,
envolvidas em todas as maneiras de comportamento licencioso, ímpio e
destrutivo, colocando-se a si mesmos contra Deus. Também sabemos que
Paulo declarou que a ira de Deus é revelada (tempo presente, voz
passiva, modo indicativo de apokalupto, de onde temos nossa palavra apocalipse)
do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade
pela injustiça (Rm 1.18). Em outras palavras, Deus está sempre trazendo
sua ira ao mundo porque persistimos no viver ímpio. Mas, podemos dizer
sem equívocos que Deus está julgando o Japão por causa de rejeição
perpétua das ofertas de graça por meio de muitos japoneses crentes e
missionários que trabalham diariamente para levar o Japão a Cristo?
Para
responder essa pergunta, precisamos primeiramente considerar uma
situação semelhante trazida à atenção de Jesus. Em Lucas 13.1-5, falaram
a Jesus sobre alguns galileus cujo sangue foi misturado, pelo ímpio
Pôncio Pilatos, com os sacrifícios que eles realizavam. E, por uma boa
medida, esses indagadores de Jesus queriam o que ele pensava sobre o
recente acidente de construção em que dezoito pessoas foram mortas
quando uma torre desabou sobre eles. A pergunta era: "Você acha que
esses galileus eram maiores pecadores do que todos os outros galileus
porque sofreram esse destino? E os que morreram no acidente de
construção eram mais culpados do que todos os outros habitantes de
Jerusalém?" Adequando essa pergunta ao nosso contexto moderno, diríamos:
a nação japonesa é mais ímpia e merecedora do julgamento de Deus do que
somos nos Estados Unidos ou na Inglaterra? Aqueles que morreram no
terremoto, no tsunami ou de exposição à radiação eram mais ímpios do que
nós o somos? A maneira como Jesus respondeu essas perguntas nos dá a
resposta que precisamos em nossa situação específica. Jesus disse aos
seus questionadores: "Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos
arrependerdes, todos igualmente perecereis". O que Jesus estava dizendo?
Estava respondendo as perguntas por focalizar-se no que julga mais
importante. A questão não é quão ímpias essas pessoas tinham sido. Elas
não eram mais ímpias do que qualquer outra pessoa. Quando comparados com
a lei de Deus, descobrimos que ninguém é justo, nem mesmo um (Rm 30.10,
ss.). Temos uma tendência de especular sobre essas coisas, mas elas não
são a preocupação no coração de Jesus. Ele muda o assunto diretamente
para seus questionadores, procurando incutir-lhes a verdade de que, se
não se arrependessem, todos pereceriam igualmente.
Portanto,
devemos ver qualquer catástrofe como uma chamada de "despertamento"
divina e graciosa. Devemos ver a Deus em todas essas coisas. Essas
calamidades servem como advertências para que todas as pessoas parem e
perguntem a si mesmas: "E se meu carro, com meu querido filhinho dentro,
tivesse sido levado pelas ondas gigantes de cinco metros de altura,
enquanto o limpador de pára-brisa traseiro limpava o vidro? O que nos
teria acontecido? Aonde iríamos depois da morte? Essas são as perguntas
que nós e todas as pessoas devemos fazer a nós mesmos! Não podemos dizer
com certeza que Deus está executando vingança sobre o Japão.
Evidentemente, Deus fez isso a nações, conforme as Escrituras, e isso
deixa claro o princípio bíblico de que ele está revelando continuamente
sua ira no mundo. É melhor deixarmos essas questões nas coisas secretas
de Deus (Dt 29.29).
E por que Deus
mostra seu magnífico e grandioso poder de maneiras terríveis? Em última
análise, ele faz tudo para o louvor e glória de sua graça (Ef 1.3-14);
e, freqüentemente, suas maneiras grandiosas e terríveis humilham as
pessoas e nações, atraindo muitos a Cristo, para obterem a salvação
eterna. Lembro-me da haver orado pela Nicarágua depois do terremoto de
1973, pedindo a Deus que trouxesse aquelas queridas pessoas a Cristo
como resultado da devastação. Quase imediatamente após o terremoto,
milhões de nicaragüenses começaram a vir a Cristo, e o movimento
continua até hoje. Que Deus faça essa mesma obra no Japão. E, por favor,
ore pelo Japão, pela igreja japonesa, por seus pastores e missionários
nativos que têm labutado fielmente, durante tantos anos, e visto tão
pouco fruto. Talvez essas coisas aconteceram num tempo como este para
que haja uma grande colheita de almas nesta nação que tem feito tanto no
aspecto econômico, mas permanece nas trevas do xintoísmo e do culto aos
ancestrais.
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